Lourenço Braga
Conversa com José Braga

Por: Lourenço Braga

Advogado, professor, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), ex-secretário de educação e ex-reitor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Ainda outubro

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No último final de semana escrevi sobre o mês que então caminhava
para o fim, falando da renovação das flores que a primavera proporciona
como se reinventasse a vida, apaixonando corações, aproximando
espíritos e corpos em magia que o amor muitas vezes explica, época de
entrega da beleza, da formosura dos sonhos, fazendo brotar a delicadeza
dos que se deixam sensibilizar por rosas, jasmins, girassóis, tulipas,
margaridas e tantas que encantam e perfumam, tempo mais suave para
os que sabem amar.


É o mês em que acontece, no vizinho estado do Pará, como destaquei, a
maior demonstração de fé a que já assisti, de que participei, em verdade,
experimentando emoção que não consigo definir, e que só explico pelo
contágio de crença que envolve fiéis contados aos milhões, de muitos
lugares do mundo, encontro de raças, de sonhos, de desejos e sobretudo
de esperanças. A pequena imagem de Nossa Senhora de Nazaré,
encontrada por um pescador nos idos do século XIX, é acompanhada por
pés descalços e mãos que chegam a sangrar com a força para permanecer
segurando a corda dos milagres e a magia que a todos envolve e domina
faz do Círio a maior procissão católica do país.


Também é o mês da santa padroeira do Brasil, com romarias que lotam
Aparecida do Norte e que para o Vale do Paraíba Paulista se deslocam de
todos os cantos do planeta para celebrar a confiança em um mundo de
paz, de amor e de luz. Ali não há ricos ou pobres, brancos, pretos ou
mestiços, doutores ou analfabetos, e todos se igualam na honrosa
condição de pedintes de bençãos da Mãe em quem creem.


No mesmo 12, outubro comporta festejos em homenagem às crianças,
quando também, rigorosamente, todos deveriam considerar iguais as dos
shoppings centers luxuosos e as que, nas sinaleiras, são exemplos
incontestes do abandono, da falta de perspectivas, muitas vezes
abusadas e até iludidas em sua inocência natural.


A 18, a homenagem é aos que honram juramento prestado a Hipócrates
e por isso dedicam suas vidas, do raiar ao por do sol, invadindo noites,
“desvirginando madrugadas”, a diminuir dores, compreender e tratar
aflições, entregando a ciência que dominam à busca da cura de
enfermidades humanas, muitas conhecidas, outras até surpreendentes,
endêmicas ou não, até epidêmicas como a que mudou os caminhos do
mundo no início desta década, crendo no que sabem e no que aprendem,
fazendo e aplicando ciência, construindo conhecimento e, sempre,
submetendo-se a vontade superior que não conseguem dominar.


Os homens e as mulheres de branco, como já foram conhecidos, já nem
usam sempre o alvor das vestes, mas é certo que o azul da roupa, mais
claro ou mais escuro, não os afasta da angelitude, quem sabe até porque
se trajam com azul celeste. Sua doação a quem nem sempre conhecem é
obra de amor verdadeiro, como acompanhei em Ana Maria, a médica que
vi criança e que assisti tratar de tantas crianças com a pediatria que
aprendeu na escola e no hospital e com o amor com que a vocação lhe
ornou o coração e o espírito. É o que vejo em Cristina Garrido e em
Theodomiro Garrido, mestres do olhar os olhos humanos, tal como faz o
professor de ambos Remo Susanna Júnior, respeitado mundo afora e que
os orientou na Universidade de São Paulo. É como reverencio Aristóteles
Alencar, cuidador dos corações que amam e até dos que nem mais
conhecem esse sentimento, Raimundo Telles, homeopata de todos nós, e
Euler Ribeiro, que abandonou o sucesso na política para entregar-se a
cuidar do envelhecimento saudável das pessoas. É também como abraço,
daqui, João Braga Neto, que tanto honra a todos nós, e Luís Henrique,
noivo de minha neta Maria Fernanda, que ontem concluiu os créditos do
curso de graduação em medicina, que está a submeter-se aos exames
necessários para cumprir residência médica e que, enquanto isso, já
conta em centenas as pessoas que atendeu nos postos públicos de saúde
deste canto do mundo. É prova viva de que esse amor pela vida não se
extingue e se renova sempre.


É também como me curvo à doação e à crença dos que se entregam a
plantar o bem junto a populações desassistidas, como em alguns
lugares da mãe-África, e aos que, honrando o que juraram, são médicos
do sangue e da desgraça que a guerra, a mais recente e a anterior, sabe
fazer.


Neste instante, por certo, enquanto há suturas sendo feitas sob o tato
humano e a luz divina, curativos que, se não capazes de estancar
hemorragias, são mostras de carinho quase sobrenatural, há explosões
que se repetem, que assustam, que matam, que sufocam e que servem
para demonstrar a estupidez inumana.
Médicos são anjos, qualquer que seja a cor de suas vestes, invocados na
hora da dor.


Outubro é, também, o mês em que se comemora o aniversário de
Manaus, casa dos Manaós de que tanto já falaram Arthur Reis, Robério
Braga, Mário Ypiranga, Genesino Braga, nascida ali em São Vicente,
longe, bem longe, da agressão a que tem sido submetida nos tempos de
outubro de agora, impregnada pela incompetência talvez dos que hoje
proclamam que a fumaça que nos invade o peito, sem glória qualquer,
vem do vizinho Pará, mesmo que haja queimadas em vários e tantos
municípios que àquele Estado nem pertencem. Basta atravessar a ponte
sobre o rio Negro para conferir o que se dá em Iranduba, Manacapuru
ou Novo Ayrão. Ou no também vizinho Presidente Figueiredo, de belas
corredeiras e cachoeiras agora escondidas pela seca cruel que a todos
nos castiga e por nuvens dessa fumaça maldita que nos adoece.


Com humildade e respeito, digo aos que mentem, por desrespeito,
descuido ou exagerado pedantismo, que bem poderíamos importar coisas
melhores do Grão a que já pertencemos, inclusive a verdade.
De Manaus falarei com a próxima palavra.


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