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Observando o mundo em um café no Porto

Por: Luiz Thadeu Nunes de Silva

Engenheiro agrônomo e viajante do mundo

Adeus, amigo de outrora

Manhã de segunda-feira, 29/04, nublada, logo irá chover. Estou na estrada em viagem a trabalho. Pelo WhatsApp recebo uma mensagem comunicado o falecimento de um amigo querido. Após dias lutando pela vida, Luiz Fernando, partira na noite anterior.


Um filme passa na memória. Filme longo, com muitas emoções, que logo se transformam em saudades. Penso sobre a finitude da vida, como tudo é tão fugaz e efêmero. Penso em Luiz Fernando me dando “Bom dia”, ao raiar do dia, e contando que acordara cedo. Às vezes enviando fotografias de seu cotidiano. Lembro de sua singeleza em contar as coisas simples de seu dia, as fotografias de filhos e a alegria de mostrar a netinha canadense, filha de Fernanda, que lá reside.


Comecei a estudar no Colégio Batista Daniel de La Touche, no início de 1970. Antigo Ginásio. Muitos dos novos colegas, com quem conviveria pelos próximos anos, também estavam iniciando o mesmo caminho, vindos de outros colégios. Eu vim de uma escola pública, no Filipinho; Luiz Fernando, do Colégio Santa Teresinha, no Monte Castelo. Como nosso primeiro nome é Luiz, nossos números na caderneta de chamada eram seguidos.


Garoto simples, comunicativo; e por seus pais, D. Alice e Seu Ditinho, serem de Rosário, terra onde residiam meus avós maternos, tínhamos muito em comum.
Uma tia de minha mãe, fora professora de Seu Ditinho. Namorei uma prima dele, Jane; e Mamede Neto, seu irmão, teve um affer com Isabel Cristina, minha irmã namoradeira.
Apaixonado por música, foi na casa dele, no Monte Castelo, onde sempre me abrigava, que mais ouvi rock na vida. Louco pelas bandas inglesas, e por Peter Frampton e sua guitarra possante, Fernando conhecia todas as letras do álbum “S
Do you feel like you doo”, lançado em 1973.


Quando vim trabalhar no Incra, fiquei mais próximo de d. Alice, antiga servidora do órgão. Baixinha, serelepe, era amor puro: com o marido, filhos e os amigos e agregados dos filhos. Quando minha mãe partiu, precocemente, em 1976, no último ano no Científico, passei longos dias na casa deles, sempre com o cuidado redobrado de d. Alice, querendo suprir o amor da mãe que havia perdido.
A vida e seu desenrolar, me afastaram de Fernando. Casei, fui morar em Pindaré-Mirim. Ele casou, descasou, casou novamente, se juntou, se separou. Passamos longo tempo sem nos vermos. Fomos nos reencontrar na casa de seu irmão gêmeo, Elias Haickel Neto. Gêmeos, paridos de ventres diferentes. Foram horas de conversa. Ele havia passado por graves problemas de saúde, estava sorumbático, pouca conversa. Mais ouvia que falava. Tempos depois, em outra oportunidade, apresentei-o a Rodrigo e Frederico, meus filhos. Ele se soltou, contou história/estórias engraçadíssimas, rebobinou a memória, voltou a ser menino. Provoquei-o sobre as mulheres, e ele rindo, dizia: “Coisas do passado, já fui bom disso”.


Luiz Fernando era tão puro, tão simples, tão descompromissado com o que não valia apenas, e tão radiante como ser humano. Não acompanhou modismos, não surfou ondas. Em tempos mercantilistas, Fernando se deu ao luxo de ser ele mesmo. Um ser único.
Luiz Fernando Carvalho Pires, meu amigo de outrora, partiu, deixou de viver entre nós, para viver em nós. E, agora povoa minhas lembranças. Há um vazio em mim. Mesmo sabendo da gravidade de seu quadro clínico, a notícia de sua passagem, me deixa um forte sentimento de perda, de que falta alguma coisa, de que partiu com ele um pouco de mim. Um pouco do meu passado.
A chuva aumentou, a viagem continua, a vida segue seu curso. Viver é administrar perdas.


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