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A arte de armar redes

Por: João Melo Farias

João Melo Farias Poeta e indigenista.

A volta do anzol

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O povo indígena Yanomami residente as margens do rio Marawiá, afluente esquerdo do rio Negro, município de Santa Isabel do rio Negro, neste vasto Estado do Amazonas, na terra indígena Yanomami, vivia sozinho como o seu deus (Omana, ou Omama, ou Omassiwe) o criou e o deixou no meio da floresta amazônica.

No ano de 1.961, o Pe. Antônio (Góes), presumivelmente, funda a Missão Sagrada Família. Mas é em 1.978 que os dois irmãos Salesianos, Francisco e Luiz Laudato chegaram e deram um grande impulso aos trabalhos da Missão (Crônicas da Missão Sagrada Família, 1.983) com o fim de catequizar e salvar as almas daqueles “anjos das florestas”.

O prédio da Missão ficou pronto. Mas para os Yanomami “tanto faz como tanto fez”.
Continuaram a viver em seus xabona ou xabono (casa de palha comunal) no entorno da Missão, como se ela não existisse.
Nessa época os Salesianos detinham muita força politica: instalavam suas missões onde queriam; não perguntavam ao Governo se podiam; e nem aos indígenas se a aceitavam. Uma demonstração desse poder era o número de vagas nos aviões da Força Aérea Brasileira/FAB, muito superior as destinadas às prefeituras da região.
E claro, tudo sob as bençãos do Governo Federal, que naquele momento apoiava tacitamente o projeto social, de saúde e educacional que os religiosos traziam com a criação de uma Missão religiosa. Daí a “permuta”, a igreja promovia o surgimento da “vila” ao redor da missão pela perenização da população indígena, até então nômade, e pela introdução da Língua Geral ou Nheengatu no lugar das línguas-mães de vários povos num só internato fazendo o reducionismo linguístico para facilitar a comunicação entre os padres e os vários povos indígenas. Enfim, preparando os povos indígenas para se tornarem cristãos; assim foi em Pari-Cachoiera, Taracuá, Maturacá, Yauaretê e Assunção do Içana instaladas no Alto Rio Negro. A Missão dos Yanomami do Marawiá não logrou do mesmo êxito das demais, dado a especificidade do povo Yanomami.

A visão geopolítica dos religiosos foi tão acertada que, na década de 90, o poderoso Projeto Calha Norte intensificou a militarização da fronteira do noroeste amazônico instalando os Pelotões Especiais de Fronteira/PEFs ao lado das mesmas missões religiosas.

A Missão Sagrada Família instalada, os padres começaram a conviver e interagir no modo de viver dos Yanomami como: convite para assistir missas aos domingos na língua Yanomami; montagem de escola para alfabetização na língua portuguêsa; uso de medicamentos ocidentais; doação de roupas para o uso pessoal e apetrechos de metais, como: terçados, machados, enxadas destinados aos trabalhos domésticos. E na pesca introduziram o anzol.

Uma introdução que facilitou muito a vida dos indígenas foi a do fósforo. Antes da entrada deste, eram obrigados a manter as fogueiras acesas por 24 horas. Quando tinham que migrar levavam consigo um ou dois tições com fogo, acessos, dado a dificuldade de acender um novo fogo se utilizando do atrito de madeira. Como resultado dessa prática o antropólogo Jacques Lizot, que conviveu um tempo com os Yanomami escreveu um belo livro denominado “Círculo de Fogo” pela necessidade de manter o fogo acesso em frente de suas casas em formato de círculo.

Antes da chegada dos irmãos Laudato os Yanomami só comiam as caças que abatiam: tanto dos animais silvestres, inclusive, as aves como os peixes. Nesse período os abates eram realizados apenas com flechas e armadilhas artesanais. Após, a presa passava por uma anamnesia para descobrir se tinham algum defeito físico ou alguma doença. Se tivessem eram descartados e, portanto, não serviriam à alimentação.

Com a entrada do anzol passaram a pescar peixes que, até então, não viam a flor da água, tipo: jaú, piraíba, jandiá. Geralmente peixes conhecidos na região como “lisos ou de couro”, que antes não tinham a oportunidade de pesca-lós, pois esses peixes teem como habitat os peraus dos fundos rios.
Foi preciso que antes os padres os comessem para demonstrar e convencer os Yanomami que eram bons para a alimentação como qualquer um outro pescado. Para sair do processo alimentar milenar que os orientava, tiveram que sofrer esse novo aprendizado.

Quase ao fim da jornada dos irmãos Laudato, década de 80 com a ajuda de Giorgio e Fabrizio Rê escreveram um livro, onde descrevem sua convivência e aprendizado, ilustrado com belíssimas fotografias desses Yanomâmis: “Um mergulho na pré história – “OS ÚLTIMOS YANOMAMI?”. O livro foi uma dádiva de Humberto Calderaro Filho, a época, o CEO da poderoso “A Crítica”. Acredito que dois motivos levaram o Calderaro a publicar essa importante obra “OS ÚLTIMOS YANOMAMI?”. A profunda amizade com o Padre Laudato (desde o Colégio do Bosco de Manaus); e a necessidade de ter na época uma obra desse porte produzida pela Rede Calderaro de Comunicação.


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