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No ritmo da sabotagem.

Por: João Melo Farias

João Melo Farias Poeta e indigenista.

A ponta da inspiração.

“Tá como pedra
Recebendo o banzeiro”.

Este singelo verso imortalizou o pescador Lindolfo Monteverde, fundador e amo do boi bumbá Garantido, quando chegava das lonjuras dos lagos do Limão ou do Xibuí à Baixa da Xanda, em suas intermináveis pescarias. Ao ver uma jangada de madeira presa a beira do rio, como antepara das águas. Esse local foi batizado pelos regionais da época como “Ponta da Madeira” onde o poeta/versador concebeu estes versos:

“Tá como pedra
Recebendo o banzeiro
Na ponta da madeira
Dando sinal de guerreiro”.
Lindolfo Monteverde

A Baixa da Xanda está localizado à margem direita do rio Amazonas, na ponta leste da cidade de Parintins e foi rebatizada, modernamente, como Baixa do São José, onde está localizado o primeiro curral (local dos ensaios) do Boi Garantido.
“A Ponta da Madeira” ficava, precisamente, em frente onde hoje está edificada a casa do Sr. Mário Taketomi, na saída do lado esquerdo da Baixa da Xanda.

Lindolfo batizou o local como “Ponta da Madeira” porque naquela época a Baixa formava uma enseada e nessas paragens, às margens, as águas correm no sentido de baixo para cima; no canal, correm no sentido de cima para baixo. Quando essas correntes se encontram formam um redemoinho e as toras das madeiras que caem nas águas durante as cheias dos rios, descem ao sabor das correntezas e formam pequenas jangadas, pois não sobem e nem descem, ficam presas às beiradas dos rios.

A jangada crescia com a juntada das madeiras, porém mesmo que uma ou outra tora se desprendesse, o centro continuava preso a beira do rio.
Mestre Lindolfo quando chegava das pescarias, trazendo peixe fresco para vender na “Baixa da Xanda” ao ver as águas do rio Amazonas banhando os troncos, reluzindo as madeiras que, como espelho d’água, refletiam o sol das tardes, deixava a verve poética de velho pescador “ viajar” e, ainda no banco de sua canoa, “bolava versos”. E entre eles, criou este que mais tarde virou toada imortal do Boi Garantido pelas ruas de Parintins.

Além das poética das beiras dos rios, lagos, furos e paranás como fontes inspiradoras; Lindolfo nutria um amor mágico de criança pelo seu “boizinho”, como ele gostava de se referir ao Garantido. Essa fonte de inspiração pode ser confirmada na teimosia do menino de 11 anos de idade que teimou em “botar o boi na rua”. Naquela década, 1910, a brincadeira de boi se destinava apenas aos adultos. E era comum se fazer acompanhar das bebedeiras alcoólicas e agressões físicas entre os adultos. A sociedade discriminava muito essa brincadeira atribuindo-a aos bêbados, rufiões e desocupados. Sua mãe, dona Alexandrina, ciosa de seu máter ofício, claro, não permitia que o seu menino se misturasse as turbas. Mas ele dizia:

  • Mãe vou botar Meu Boizinho na Rua.
    E ela respondia:
  • Lindolfo, tu não garante.
    E ele teimosamente lhe respondia:
  • Eu garanto, por isso, meu boizinho há de se chamar Garantido.

Mais tarde, mestre Lindolfo, depois de uns goles na “meiota para se truviscar” ou “queimar nos dentes” acresceu aos versos acima:

“Chegou o boi Garantido
Todo bonito enfeitado de lanças
A orelha dele balança
É verdade
Meu garrote é de ouro
Morena tu queres?
Te dou de presente.

Fonte: o livro “Boi Garantido de Lindolfo”, de autoria de Dé Monteverde e João Batista Monteverde.
(Neto e filho de Lindolfo Monteverde).


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