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Caciquismo gosta de fidelidade

Por: Carlos Santiago

Sociólogo, Analista Político, Advogado e Membro da Academia de Letras e Culturas da Amazônia – Alcama.

A força política e social de Bolsonaro

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Somente a inelegibilidade eleitoral de Jair Bolsonaro parece não enfraquecer a sua força política nem a abrangência do seu discurso, pois na semana em que o Tribunal Superior Eleitoral – TSE retirou o direito do ex-presidente de disputar eleições nos próximos oito anos, o instituto Datafolha publicou pesquisa em que 52% dos entrevistados acreditam que o Brasil corre o risco de virar comunista; 36% acham que a Ditadura trouxe coisas boas; 39% defendem que o PT não respeita a família cristã; e 65% concordam que valores religiosos e a política devem andar juntos. Esses números e outros indicadores já demonstram a necessidade do presidente Lula de focar seu governo na promoção de políticas públicas e numa gestão com ética pública para diminuir a força da agenda bolsonarista exposta na pesquisa.

Nos últimos anos, as estratégias eleitorais e os discursos políticos do presidente Bolsonaro e de seus apoiadores envolveram (e envolvem) a defesa de um modelo “perfeito de cristã de família”; a aprovação de educação civil/militar e, em alguns casos, realizada pela própria família; a defesa do patriarcado nas relações sociais; a vedação ao casamento homoafetivo, a liberação do uso de armas como instrumento de liberdade; o combate à ideologia do comunismo, a exaltação da vida militar e conflitos permanentes com outros Poderes da República.

Os valores sociais usados por Bolsonaro nas estratégias eleitorais e nos discursos políticos não foram criados por ele. Nem foram utilizados somente pelo ex-presidente na história do país. No entanto, Jair Bolsonaro soube capturar esses valores das velhas tradições do país, como o autoritarismo, o patriarcado, a violência, o elitismo e o preconceito contra índios e negros, criando na agenda popular embates sobre democracia x atos antidemocráticos, comunista x patriota, camisa vermelha x camisa verde amarela, homossexual x heterossexual, o povo de Deus x os representantes do diabo, os defensores da vacinação x os contrários as vacinas e o movimento de mulher x movimento feminismo. Até a cor da camisa da seleção brasileira era motivo de calorosos debates.

As últimas pesquisas do Datafolha mostram a capilaridade do discurso de Bolsonaro e da tradição social brasileira, cultuadas por uma parcela significativa da população, por membros destacados de instituições de Estado, por grupos religiosos e por setores do empresariado. Por outro lado, o presidente Lula não consegue alcançar uma popularidade confortável. Sem novidades, repete alguns programas sociais exitosos, das suas gestões anteriores, mas mantém o fatiamento da máquina pública e busca conciliar com um Congresso Nacional mais conservador e com lideranças da Direita política, bem diferente das suas administrações anteriores.

A saída para superar ou diminuir a força da retórica bolsonarista, numa sociedade de tradição social que ajuda o discurso de Bolsonaro, é o investimento e a promoção de políticas públicas, pois há uma década o Brasil não tem crescimento econômico sustentável, a educação não melhorou, o desemprego e o trabalho informal cresceram, o sistema de transporte público piorou, a segurança pública não responde mais aos desafios dos novos tempos, milhões de pessoas continuam sem casa própria e a qualidade da política e dos governantes sofrem rejeição popular. Se o atual governo não for capaz de mudar o debate político e eleitoral, não será a inelegibilidade de Bolsonaro que irá enfraquecer a narrativa dele e de seus apoiadores que já conquistaram mandatos e corações de milhões de brasileiros.

Sociólogo, Analista Político e Advogado*


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