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O melhor e o pior da nossa existência

Por: Luís Lemos

Professor, filósofo e escritor, autor, entre outras obras de: Filhos da quarentena - A esperança de viver novamente. Editora Viseu: Maringá-PR, 2021

A família de Nietsche

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Nietzsche acabara de chegar a Turim, na Itália. Estava cansado. O estômago vazio lembrava-o de que não comia há dias. “O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte”, refletia. Seus pensamentos estavam embaralhados, num misto de náusea, sofrimento e dor. “Quem luta com monstros deve se cuidar, pois, ao fazê-lo, pode se transformar também em monstro”, pensava.


Afastando-se um pouco da multidão, Nietzsche sentou-se sobre sua mala com o velho casaco de pele nas mãos e põe-se a observar os transeuntes. Num dado momento, Nietzsche viu um cocheiro que batia com força no seu cavalo porque o animal não queria andar. O cavalo estava completamente exausto. Não tinha mais forças. Mesmo assim, o dono batia com o chicote no animal para que continuasse andando, apesar do cansaço.


Nietzsche ficou apavorado com aquela cena. Depois de censurar o comportamento do cocheiro, ele se aproximou do cavalo que tinha desabado e o abraçou. Em seguida, começou a chorar. As testemunhas disseram que Nietzsche murmurou algumas palavras que ninguém escutou ao ouvido do cavalo. Contam que as últimas palavras do filósofo foram: “Mãe, eu sou um idiota”. Em seguida, ficou inconsciente e sua mente entrou em colapso.


Depois desse episódio, Nietzsche fora internado num hospital psiquiátrico e obviamente ele nunca mais pôde voltar à sua vida racional de antes. Mas sete anos depois e poucos dias antes de morrer, ele recuperou a memória. “Onde eu estou?”, “Que lugar é este?”, indagava. “O senhor não se lembra?”, perguntou a enfermeira. “O senhor foi trazido para cá pela polícia porque estava perturbando a ordem pública”, disse. “A vantagem de uma memória ruim é poder desfrutar várias vezes das mesmas coisas boas como se fosse primeira vez”, respondeu.


Em seguida, Nietzsche levantou-se da cama e parecendo acordar de um profundo sono, disse: “Preciso de papel e caneta”. “Sim senhor, terás o que deseja”, respondeu a enfermeira. Daquele dia em diante Nietzsche escreveu, sem parar, principalmente cartas para a sua família. É verdade que muitas de suas frases saiam inconclusivas e até incoerentes, mas ele escreveu e escreveu muito. “Quando se olha por muito tempo para um abismo, o abismo também olhará para dentro de você”, dizia.


Poucos dias antes de morrer, Nietzsche já muito debilitado pela doença, imaginou encontrando-se com sua família. “Bom dia”, cumprimentou alegremente Nietzsche a sua irmã. “Bom dia!”, respondeu Elisabeth, meio desconfiada. “Cadê a mamãe?”, perguntou Nietzsche. “Estou aqui, meu filho amado!”, respondeu dona Franziska, abraçando-o. Nietzsche respondeu aquele afetuoso abraço, dizendo: “É preciso ter o caos dentro de si para dar a luz a uma estrela dançante”. Em seguida virou para a sua irmã, e lhe disse:


“Até agora estava miserável e repugnante e não quero com isso como que solicitar que você reflita sobre receitas para me ajudar a levantar. Eu devo me ajudar a levantar, ninguém mais – e também devo encontrar minha receita e não permitir que me deem nada”. “Que bom saber disso, querido irmão!”, disse Elisabeth. “Eu só quero amar o que é necessário!”, respondeu Nietzsche. “Siga em paz meu amado filho”, disse dona Franziska. “Sim! Amor fati é meu último amor!”, respondeu Nietzsche.


Diferentemente do que muitos pensam, Nietzsche viveu intensamente sua vida. Foi “Humano, Demasiado Humano”, viveu “Para Além do Bem e do Mal”, acreditou no “O Anticristo”, sustentou a morte de Deus em a “Gaia Ciência”, teve “Vontade de Poder”, fez “Considerações Intempestivas” e pensou ser o super-homem em “Assim falou Zaratustra”; livros escritos por sua pena!


Apesar de ter se caracterizado pela destruição total dos valores, sem ter apresentado qualquer outro em seu lugar, Nietzsche amou profundamente sua família, os poucos amigos que teve e pensou sobre tudo o que vinha em sua mente. Enfim, apesar de dizer que “não era um homem” e sim “uma dinamite”, ele tinha um coração doce e até amigável. “A vontade de superar um afeto não é, em última análise, senão vontade de outro ou de vários outros afetos”, dizia.


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