A dura realidade de quem mora nas ruas de Manaus

Praças e calçadas servem de moradia

Eles passam vários dias sem higiene pessoal e reclamam de preconceitos

Maria Ritah
Para o Portal ÚNICO

Sem lenço e sem documento, João da Silva, 45, busca caixas de papelão para fazer uma cama. Sem comer há dois dias, é nos lixões da feira e de restaurantes do Centro da Cidade de Manaus que ele procura alimento. Magro, com forte odor, não toma banho higiênico há mais de um ano. Perto de onde ele dorme, no chão da praça da Igreja dos Remédios, Centro da Manaus, outros moradores de rua se aglomeram.
A alta concentração de moradores de rua em Manaus pode ser explicada em parte pela crise econômica da pandemia e dos governos que não investem na atenção psicossocial das pessoas em situação de rua. Por toda cidade, é possível ver andarilhos e, em grande parte, são moradores de rua de longa data, dependentes químicos ou com transtorno mental e, mais recentemente entraram na estatística de rua, famílias que perderam sua moradia por não conseguir pagar aluguel por conta da situação econômica ou conflitos familiares.

Morar em abrigos sociais

Segundo dados do Serviço Especial de Abordagem Social, da Prefeitura De Manaus, de 2020 até 2021, cerca de 800 pessoas foram cadastradas e convidadas a entrar em abrigos sociais para receber orientação, atendimento médico e encaminhamento para outras unidades. A gerente de serviço especial de abordagem social, Clícia Simone, afirma que o número alto se deve às dificuldades financeiras. “Hoje vemos que, além de dependentes químicos e alcoólicos, encontramos muitas famílias dormindo nas calçadas”, diz ela.
Segundo Clícia, é grande a dificuldade de mapear a quantidade de moradores de rua, porque a rotatividade de entrada e saída deles é muito alta. “Alguns voltam para suas famílias, outros ficam internados em clínicas e outros mudam de cidade”, explica, acrescentando que a Prefeitura de Manaus estuda uma forma de fazer este mapeamento.

Briga com padrasto

Nas marquises e calçadas, as camas são de papelão

As caixas de papelão servem de parede, o colchão e a coberta num canto da calçada. Na rua, dessa casa improvisada, um homem e seu cachorro dividem o mesmo barraco. Ele é Carlos Diego Oliveira, 32 anos, e mora há um ano e oito meses na calçada de um ponto comercial da avenida Max Teixeira, Zona Norte, em Manaus. O cachorro de rua apareceu depois e logo recebeu carinho. Ele atende por Bob.
Diego conta que nasceu em Manaus e que aos 8 anos de idade o pai morreu. Da família ficou ele e a mãe. Estudou até o segundo grau, depois serviu ao exército, fez curso NPOR e desistiu. “ Voltei para casa, arranjei um emprego, casei e tenho uma filha hoje com 18 anos, depois por coisas da vida separei e fiquei muito em festas e bebidas”, relata.
O motivo para virar morador de rua foi a briga com o padrasto. “Ele me expulsou de casa e por pouco não matei ele. Prefiro morar na rua que numa cadeia”, afirma.
Hoje se diz adaptado nas ruas e recebe ajuda de várias pessoas que fornecem comida para ele e o Bob. Em relação à mãe, ele diz estar esperando que ela venda uma casa para receber sua parte e poder comprar um espaço próprio.

Uma luta diária

Douglas conheceu Suzane em um abrigo e a convidou para morar nas ruas. Ela aceitou

O morador de rua Douglas Almeida Rodrigues, 31 anos, nasceu no Maranhão e vive nas ruas há nove anos. Sabe ler e escrever muito pouco e um determinado dia, segundo ele, decidiu sair de casa para viver como andarilho pelo Brasil. No auge da pandemia, diz que estava em Manaus e conseguiu um lugar num abrigo do governo. Foi nesse abrigo que conheceu a mulher, Suzane Amazonas dos Santos, 28 anos. Douglas diz que se apaixonou e convidou a mulher a viver nas ruas do lado dele. “Ela aceitou e estamos juntos há dois anos. Nas ruas eu cuido dela e ela de mim. A noite enquanto ela dorme, eu vigio. Ficamos revezando para evitar que alguém nos mate ou roube”.
Douglas explica que foram expulsos de alguns pontos de rua, por conta do preconceito. “Nem todo morador de rua é usuário de droga ou cachaceiro. Nós também trabalhamos e vivemos na rua, porque não temos condições de pagar aluguel. A gente é pobre e merece respeito”, afirma.

Vendendo balas com o cachorro

A venda de bombons ajuda no sustento e o cão companheiro está sempre presente

A mulher de Douglas, conta que nasceu em Rio Preto da Eva e mora nas ruas há quase três anos. Saiu de casa porque não gostava da mãe. “Eu prefiro ficar nas ruas do que morar com a minha família”, disse.
Com a aparência precisando de cuidados, dentes cariados e agarrada ao cachorro, Suzane diz que só quer vender os bombons para comprar comida. Sobre fazer uma higiene, Douglas afirma que eles utilizam os postos de gasolina e pedem comida. Sem qualquer material de limpeza, ele afirma que chegaram a ficar sete dias sem tomar banho. “Eu estou esperando uma oportunidade de emprego, se Deus quiser eu vou ter”, afirma.


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