fbpx
3 de julho de 2022
A dura realidade da chamada “vida fácil”

Coluna:

Por: Maria Ritah

Maria Ritah é atleta ultramaratonista, apresentadora e produtora do programa Conexão Gaia, da radio Logos FM 87.9. Contato comercial 92-991021957

A dura realidade da chamada “vida fácil”

Roupas provocantes e olhos atentos em busca de clientes, na Praça da Matriz

Associação das Prostitutas do Amazonas pede socorro

Profissionais do sexo foram despejadas e não têm programas sociais de apoio

Por Maria Ritah
Para o Portal ÚNICO

Criada em 2008, a Associação de Prostitutas e ex-prostitutas do Amazonas (As Amazonas) está com as portas fechadas desde 2018. O antigo escritório no Centro da cidade teve seu contrato de aluguel rescindido por falta de pagamento. As promessas politicas não cumpridas e o abandono de projetos na formação da organização da classe trabalhadores do sexo, afastaram as 1.800 associadas.


A ex-prostituta, Dona Ana, 64 anos, que é presidente da Associação, denuncia o descaso social com as trabalhadoras do sexo, que estão no rol das categorias mais afetadas pela pandemia causada pelo novo coronavírus.


A associação, que elas chamam carinhosamente de ‘As Amazonas’ foi criada em 2008, e precisa de estrutura física, um escritório para atender as associadas, material de expediente para a aquisição da carteirinha, orientação e educação sexual, cuidados com a higiene, atendimento médico e hospitalar.


A presidente lembra que há muitos anos um governador chegou a ceder uma casa para ser sede da As Amazonas, mas o projeto não foi concretizado por questões burocráticas. “Uma vereadora na época ficou à frente, mas não cumpriu as promessas de campanha”, diz indignada.


Dona Ana afirma que, no ato da criação, alguns políticos levantaram a bandeira e as apoiaram na formação da organização da sociedade civil de apoio às profissionais do sexo. Mas, logo depois de eleitos, viraram as costas. “Eu ia todos os dias à Câmara Municipal de Manaus (CMM), nos gabinetes, cobrar a assistência que eles prometeram, e nada”, lamentou. “Passaram a perna na gente”, reclamou.

Luta para recriar a associação

Dona Ana luta para dar continuidade aos trabalhos, mas apesar de muitas associadas, ninguém quer se comprometer. “Precisamos formar uma diretoria, mas por sofrerem discriminação, algumas se recusam e preferem trabalhar sozinhas. Eu falo todo dia, conscientizando a importância de se ter representatividade na sociedade pois somos classe trabalhadora também com direitos trabalhistas garantidos”, diz ela.


Ela é presidente da Associação, desde a sua fundação. E todo os dias vai conversar com as trabalhadoras tentando reorganizar a classe e cobrar os seus direitos. “Infelizmente ainda não consegui formar uma diretoria, pois hoje elas estão mais polarizadas. Algumas migraram para outras zonas da cidade e outras foram embora, alegando que têm medo da exposição”.


A presidente lembra que a atividade do profissional do sexo é legitima e registrada na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), como prestadores de serviço, com o objetivo de ajudar as profissionais do sexo a garantir seus direitos de prestar serviço nos espaços públicos.


A categoria “profissional do sexo” é composta por pessoas que praticam o sexo, de modo impessoal, visando um valor em dinheiro e/ou qualquer outro bem. “Somos mulheres guerreiras, fortes e valentes. Sustentamos nossa família, pagamos nossos impostos e até nossa aposentadoria. Merecemos respeito nesta terra tão cheia de preconceito”, declarou

Dona Ana: luta diária para reorganizar a categoria das profissionais do sexo

Histórias da vida dura da prostituição

Passos firmes, olhos atentos e roupas provocantes, as prostitutas das praças e avenidas que trabalham em várias zonas de Manaus, são mulheres guerreiras. A maioria delas é casada, tem filhos e algumas são avós. O trabalho sexual não diminui a força dessas mulheres de vida dupla, que fazem do seu próprio corpo, um comercio para sustentar a família.


O trabalho sexual move uma economia oculta e, nessa era digital, muitas já se identificam como verdadeiras empreendedoras do sexo, pois também se utilizam das redes sociais (perfis geralmente fictícios) e conversas via WhatsApp para agendar programas, receber propostas e propagar suas performances sexuais com o objetivo de ganhar mais clientes.


É o caso de Fabi, 26 anos, mãe de 2 filhos e divorciada. Ela conta que, aos 15 anos, começou a trabalhar vendendo o corpo. “Minha família era muito pobre e mal tinha dinheiro para a comida. Eu queria comprar roupa, perfumes e batons, mas não podia. Um dia eu conheci uma colega de aula que fazia programas e ela me deu todas as dicas. Foi assim que eu entrei nesta vida e nunca mais larguei”, disse. Fabi conta que já tentou sair quando conheceu seu ex-marido. “Ele achava que eu trabalhava em casa de família, mas eu ia para o Centro da cidade me prostituir, voltava para casa às 18h. Ele não desconfiava”, afirmou salientando que largou o ex-marido porque ele bebia muito e passou a agredi-la. Mesmo nas esquinas, conversando com outras garotas, o celular de Fabi toca sem parar. Eram clientes marcando a hora, porque teria feito divulgação numa rede social. Contato feito, ela pega a bolsa e vai para o outro lado da pista encontrar seu cliente.


Antes de ir, ela ressalta que este será o último ano dela nas ruas, pois pretende guardar dinheiro e montar um comércio no bairro Santa Etelvina, no conjunto Viver Melhor, zona Norte de Manaus. “Eu não quero ficar velha neste trabalho”, finaliza.

Profissionais do sexo têm vida difícil para sustentar a família

A prostituta que sonha em ser enfermeira

É por meio do trabalho sexual que Dione, 28 anos, paga o curso de técnica de enfermagem e estuda para fazer o concurso da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa). “Eu estou me esforçando para ter um emprego seguro”, afirma. Mãe de três filhos menores, enquanto ela vai para as ruas, eles ficam aos cuidados da avó. É ela que sustenta a mãe, o filho e os irmãos que estão desempregados. “Se eu não faturar na praça, não tenho como pagar o aluguel e as despesas do meu curso”, afirmou. Segundo ela, ser profissional do sexo não é safadeza, isso porque muitas que estão fazendo esse trabalho, o fazem por necessidade. De outra forma, não teriam como ganhar mais de um salário mínimo. Dione diz que ganha em média R$ 2 mil por mês. “O pior momento foi na pandemia. Muitos clientes idosos bons pagadores morreram e não podíamos também trabalhar”, afirma.

Violência sexual, idosos e sujos

Nem tudo são prazeres. Algumas garotas de programa relatam que já sofreram violência. Foram espancadas por clientes que exigiram sexo selvagem e estavam sob efeito de drogas.


Ju* tem 48 anos. É prostituta há 21 anos e conta que começou a se prostituir nas boates do Centro e pelas ruas da cidade, quando o companheiro a abandonou com dois filhos para criar. Sem renda, foi numa das avenidas do Centro que um homem contratou o seu serviço. A primeira experiência, segundo ela, foi traumatizante. “Tive problemas, mas depois você aprende a se defender”, conta


No quarto de motel, o cliente exigiu que ela permitisse que ele lhe batesse. “Eu permiti palmadas, mas ele se alterou”, conta, afirmando que chegou a ser socorrida pelo dono do local.


Segundo ela, com a lei Maria da Penha, as prostitutas foram muito beneficiadas. “Essa lei nos ajudou porque nós podemos denunciar qualquer tipo de violência contra mulheres. Eu satisfaço os desejos dos meus clientes, é meu serviço, mas violência, não”,declara.

Na escadaria do coreto, a espera paciente por quem se dispõe a pagar por sexo casual

Auxilio Emergencial ajudou na pandemia

Maira*, 24 anos, é outra que trabalha na praça da Matriz. Há cinco anos ela presta serviços sexuais. Tem clientes fidelizados que na maioria são idosos comandantes de embarcações. No período mais difícil da pandemia, ela conta que muitos morreram. “Eu perdi muitos clientes para o vírus. Eles eram pessoas boas e pagavam bem”, acentua.


Segundo ela, a maioria dos seus clientes hoje em dia é playboy, que exigem fantasias e até orgias sexuais. “Dependendo do valor eu topo e chamo até outras meninas se a pessoa pagar bem”.


Diante da pergunta sobre, se ela tem medo ou pensa em exercer outras profissões, ela diz: “até já tentei trabalhar como comerciária e manicure, mas acho que me viciei em ganhar dinheiro vendendo o corpo”, diz.

As esquinas, ruas e praças do centro histórico de Manaus são o local de trabalho

Breve histórico sobre prostituição

Há estudos que dizem que a prostituição é o trabalho mais antigo do mundo, e em segundo, é o do cozinheiro. Na antiguidade, as mulheres detinham um poder sexual incrível e se entregavam por dinheiro.


Já na Grécia, Afrodite de Pandemos reconhecida como a vênus da Terra, personificava a prostituição. Entretanto, os serviços oferecidos não eram apenas sexuais, mas também mentais, visto que muitos procuravam para troca de conhecimento, cultura e questionamentos.


No dia 2 de junho de 1750, 150 prostitutas se reuniram em praça pública na França, para reivindicar seus direitos, proibidos pela era patriarcal. Muitas morreram queimadas e foram chamadas de bruxas.


No início da urbanização no século XIX a prostituição em bordeis foi permitida, porque seria uma forma de evitar casos de estupro e violência sexual.


Por volta da década de 1970, no Brasil, as prostitutas passaram a ser chamadas de profissionais do sexo.

Nomes fictícios a pedido das entrevistadas

Qual sua Opinião?

Confira Também