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O Criador e a Criatura

Por: João Melo Farias

João Melo Farias Poeta e indigenista.

A arte de armar redes

Parece fácil, mas não é se você dispõe apenas de 40 centímetros por 2,5 metros para armar uma rede de dormir num barco/recreio superlotado.

Após a publicação de “O povo da rede virou sardinha?”, em 25.03.2024 tivemos a oportunidade de visitar o proprietário de barco, amigo nosso, que nos apresentou um “fantástico” engenheiro naval, aquele profissional que determina o espaçamento das redes: a cada 40 cm. uma rede.
O mesmo nos disse:
— A regra é disponibilizar um metro quadrado por rede. Assim 40cm X 2,50m soma um metro quadrado.
No barco em que viajei o espaço é de 40 cm X 2,75 m, que importa em 1,10m2, portanto, 10 centímetros acima do que é recomendado pelo engenheiro naval.

Temos que considerar os ganhos financeiros dos barqueiros justamente em cima do pessoal das redes, que, ao fim é quem sustenta parte da cadeia econômica dos barcos. Infelizmente, não dispomos de dados dessa variável, mas, a olhos vistos, a frota de barcos de Parintins se renovou e se embeleza mais e mais a cada Festival Folclórico. E esse processo de melhoria da qualidade dos barcos é contínuo. Isto não seria possível se não houvesse ganhos financeiros suficientes para promover a renovação e as reformas dos mesmos. Concluímos que o problema das redes nos barcos não é financeiro. Concluímos também que a base dessa melhoria está a exigência dos parintinenses por melhores condições nos barcos, principalmente, velocidade para se chegar o mais rápido.

E até agora não vimos ninguém, nenhuma autoridade se preocupar com o espaço destinado às redes nos barcos recreios.

Para armar “bem” uma rede de dormir num barco passamos às considerações sob o ponto de vista dos usuários das mesmas. Vamos considerar a altura de 1,65m e o peso de 75kg, em média dos amazonenses para arbitrar um número que lhe garanta um mínimo de conforto. Lembrando que rede não é catre dos navios de guerra onde a marujada dorme. E ainda que ninguém se deita reto numa rede. O deitar com conforto na rede se dá enviesado ou em diagonal, que exige um espaço mínimo de 90cm para que as redes não fiquem superpostas. A rede arma, se abre com o corpo da gente dentro. Quem sabe armar bem uma rede deve levar em consideração ainda: o lado que a descarga do barco está localizada, pois além do barulho que a mesma faz, a depender dos ventos contra ou a favor, você pode chegar ao seu destino salpicado de gotículas de óleo diesel expelido pela descarga. A posição que os raios do sol incidem nas laterais dos barcos, há que se defender do sol e dos ventos. Ficar o mais longe possível da casa de máquina e da caixa de som dos bares; a casa das máquinas mesmo com a modernidade dos computadores e refrigeradores continua como se estivéssemos nos tempos áureos da borracha; as caixas de som com suas musicalidades de gosto duvidoso, se criou um dogma, uma cultura de quanto mais forte (alto), melhor para os passageiros, errado: trata-se de um barco recreio e não de uma boate ou clube de festa.

A sensação de conforto e privacidade que um homem ou mulher regional podem usufruir numa rede de dormir, sem medo de errar arbitramos em 90cm, considerando o deitar na diagonal para garantir a segurança e a privacidade do “pessoal da rede”.

Além da comodidade de espaço para as redes, uma amiga do nosso coração, contumaz usuária dos barcos de linha sugeriu que além de sanitários limpos e funcionais para as mulheres, seria de bom senso que os barcos dispusessem, obrigatoriamente, de: pessoal de limpeza dos conveses e dos banheiros; coleta de lixo seletivo para ajudar na preservação dos rios da Amazônia; medicamento básicos para os primeiros socorros com um profissional habilitado para tal; tripulação fardada, identificada, cortes e prestativa; cumprimento dos horários de saída e de chegada e, voltar a servir refeição nos refeitórios, pois se trata de uma concessão pública onde quem paga é quem manda.

Para armar “bem” uma rede, além dos predicados acima, você precisa de um pano de rede com 2,80m de comprimento, punhos com 20 pernas, duas cordas com 1 metro de comprimento cada, fazer laço de correr para não dar nós nas cordas e espaço mínimo de 90cm entre as redes.


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