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O engodo da imparcialidade

Por: Walmir de Albuquerque Barbosa

Professor Emérito da UFAM; Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo(USP); Graduado em Jornalismo pela UFAM.

Durma-se com um barulho desse

“Vista assim do alto/ Mais parece um céu no chão/Sei lá/ Em Mangueira a poesia/Feito um mar se alastrou/E a beleza do lugar/Pra se entender/Tem que se achar/Que a vida não é só isso que se vê/É um pouco mais/Que os olhos não conseguem perceber/E as mãos não ousam tocar/E os pés recusam pisar” (Sei lá, Mangueira. Composição de Herminio Bello de Carvalho/Paulo César Batista de Faria), na voz de Elizeth Cardoso, A Divina (1969). Feita para cantar a Mangueira (Rio de Janeiro) como lugar de vida, de ação, de pensamento, de poesia e de sofrimento, tomo a canção, não só para lembrar minha Mangueira e a intérprete Elizeth Cardoso, mas, também, para aplicar ao que espero dizer sobre todo o nosso Brasil: visto assim do alto é uma síntese do Éden, mas, como toda construção humana em que se põe os pés, aparecem, também, as contradições, os enganos e as aberrações produzidas pela natureza humana, muitas vezes sórdidas e cruéis. Durante a semana inteira desfilou em nossa frente um pouco dessa sordidez conhecida, quando a imprensa, até mesmo a engajada com o discurso da direita brasileira, mostrou um pouco do que foi a Ditadura de 21 anos, iniciada com o Golpe de 1964. As redes sociais, a seu modo, sempre diverso, picotado, personificado ou no modo “selfie” de dizer “eu estive aqui”, marcaram presença e trouxeram alguns detalhes, pontos significantes, que, juntados por uma mente sã, compõem um mosaico de realidades espalhadas por todo o país e servem ao fortalecimento de uma memória que o Estado Brasileiro tenta enterrar, sei lá em nome de que, pensariam alguns, e rapidamente desmentidos pelos depoimentos exaustivos dos que pesquisaram e se debruçaram sobre essa triste realidade e trouxeram à luz o resultado de suas reflexões nos Blogs, nos Portais e nas “lives” da internet e em programas de documentários da mídia por assinatura ou aberta. Quanta crueldade! Contrariou em tudo o que a vontade expressa do Presidente da República, dentro de um projeto para suavizar tensões dentro das casernas e fora delas, nos meios mais radicais, como se essas fossem “Poder”. A olhos vistos a memória é eterna, e como um olho d’água que brota da terra, brota, também, de nossas consciências. O caminho do esquecimento está errado! O enfrentamento de tudo que pesa sobre os nossos mal feitos deve ser constante e a interrupção de ações em busca da verdade não cabe aos poderes de cima decidir. Os poderes da República devem, isto sim, não se furtar ao compromisso com a verdade, porque senão serão “violentados” novamente como o foram no 8 de janeiro. O Supremo Tribunal Federal julga, agora, o mérito de uma a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 6457) ajuizada em 2020, quando poderia tê-lo feito muito antes, face a urgência e a gravidade dos acontecimentos. Certamente não o fez porque não tinha as garantias que lhe são dadas neste momento. A decisão do STF é peremptória e será levada ao conhecimento das Forças Armadas para que ajustem os currículos nos seus cursos de formação militar e para que neles não conste a mentira plantada por juristas tacanhos sobre o “tal poder moderador”.

Mesmo assim, tudo ainda é insuficiente. Golpes de Estado foram dados independentemente de ter ou não um artigo 142 na Constituição. Deve-se, outrossim, ao poder das elites brasileiras, com poder incomensurável. Elas têm suas origens no latifúndio, nas finanças, nas oligarquias de sangue, no tráfico negreiro; nas milícias, formadas por contraventores que limparam sua origem duvidosa nos vãos da política e nos conchavos do mandonismo. Todos usando dinheiro público: ora por sonegação de impostos, ora por “sonegações legais”, postas como “jabutis” nas leis aprovadas pelo Congresso; pelo fundo partidário; pelo caixa 2 das propinas disfarçadas. Este é o amálgama enraizado nas instituições permanentes do estado, tanto as civis quanto militares, nos partidos políticos, nas Universidades e nas corporações profissionais, cooptando pares, subalternos, religiosos de plantão, enfim, todos que tenham pendores para o ilícito. E, para que não lhes falte a matéria prima para o empreendimento de mando, é necessário sempre manter alta a desigualdade, o preconceito, o racismo, a precariedade do trabalho e a injustiça social. Quando muito, alguns ouvem envergonhados o barulho dos injustiçados e desvalidos! É preciso limitar o poder das elites, se quisermos inventar “um modo novo de viver, de pensar, de sonhar e sofrer”!


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