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Por: Juscelino Taketomi

Jornalista, há 28 anos servidor da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam)

100 anos de Kafka, o romancista que ousou dizer que somos todos insetos

Uma manhã de primavera em Praga. A cidade acordando com a mesma melancolia que marca a alma de quem lê Kafka. A brisa leve e o céu acinzentado criando um cenário digno de suas histórias, onde a fronteira entre o real e o fantástico se dissolve, e o inesperado torna-se uma constante. No coração dessa cidade, ecos de um século de Kafka, uma homenagem silenciosa ao escritor cuja obra transcende o tempo e a geografia.

Sim, é este o cenário que imaginei para a cidade de Praga lembrar os 100 anos de um de seus filhos mais ilustres: Franz Kafka, nascido em 3 de julho de 1883 e falecido em 3 de junho de 1924, na Áustria.

Sinceramente, quando me deparei com as obras de Kafka pela primeira vez, eu iniciava minha adolescência em 1973, aos 17 anos, e mergulhava nas imagens vibrantes de “A Metamorfose”.

Mal sabia eu que aquela história de um homem transformado em inseto seria a porta de entrada para um universo onde a banalidade da existência cotidiana se entrelaça com o extraordinário, onde cada linha escrita carrega a tensão entre o ser e o não ser.

Kafka, com sua visão aguda e sensibilidade ímpar, nos oferece um espelho de nossas próprias ansiedades e angústias, uma jornada pela fragilidade humana e a crueldade do mundo.

A marca do sofrimento

Franz Kafka, o homem cujo corpo frágil e alma atormentada refletiam a própria essência de suas histórias, viveu uma vida marcada pelo sofrimento – e que sofrimento ! Suas dores físicas eram quase tão constantes quanto suas dores emocionais, transformadas em contos, cartas e diários que ele escreveu à luz de velas, em alemão.

Quem sabe por isso, por escrever suas páginas literárias em outra língua, Praga, sua cidade natal, nunca tenha celebrado seu gênio como deveria. Kafka não escreveu em tcheco, e essa escolha linguística criou um abismo entre ele e seus compatriotas.

Mesmo assim, Kafka encontrou um lar na mente de leitores ao redor do mundo inteiro. Seus romances, muitas vezes inacabados, são convites para a introspecção e a continuação pessoal. Cada leitor é chamado a preencher as lacunas deixadas por Kafka, a encontrar seu próprio caminho através do labirinto de suas narrativas.

Obras como “O Processo”, “O Abutre” e “Onze Filhos” não são apenas histórias. São reflexos das complexidades e absurdos da vida, apresentados com uma clareza quase dolorosa.

A relação de Kafka com o teatro revela outra faceta de seu talento. Embora tenha escrito apenas uma peça teatral, “O Guardião da Tumba”, seu amor pelas artes cênicas e pelas atrizes é evidente.

Ele esparramava um amor platônico que transbordava para suas obras, trazendo uma dimensão quase palpável à sua escrita. Sua amizade com o ator judeu Löwy é um testemunho de sua conexão profunda com o teatro e sua capacidade de encontrar beleza e significado na performance.

Poesia no assombro do mundo

Neste centenário de sua morte, celebramos não só a obra de Kafka, mas também sua capacidade de nos ensinar a ver a poesia no assombro do mundo. Sua visão do absurdo fascinante da existência, marcada pela leveza e profundidade, nos guia além da superfície das coisas.

Kafka nos mostrou que a vida, com todas as suas incongruências e desafios, é uma obra de arte em si mesma, uma jornada que, inevitavelmente, chega ao fim. Porque a vida possui começo, meio e fim.

Kafka vive, mais vibrante e presente do que nunca, um gigante disfarçado de inseto, imortalizado por suas palavras e pelo impacto duradouro que causou no imaginário coletivo.

Cem anos se passaram desde a morte do extraordinário romancista, mas ele continua a nos assombrar, a nos inspirar e a nos desafiar a ver o mundo através de seus olhos, com uma clareza que nos leva além do óbvio, rumo ao inexplicável.

Não seria exagero algum dizer que Kafka, afinal, é o próprio Big Bang literário, uma explosão de criatividade que ainda reverbera em nossas mentes e corações cem anos após sua meteórica passagem pela Terra.


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